“O Exército Vermelho na Mira de Vargas” é uma publicação independente
Com previsão de lançamento para outubro, o livro “O Exército Vermelho na Mira de Vargas” revela a censura do governo de Getúlio Vargas às notícias referentes ao papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. A Sputnik Brasil conversou com um dos autores da obra, que ressaltou os pontos inéditos da pesquisa.
O papel fundamental da União Soviética na vitória contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial foi motivo de preocupação durante o governo de Getúlio Vargas no Brasil e gerou censura a notícias sobre o conflito. É o que aponta o livro “O Exército Vermelho na Mira de Vargas”, obra que mergulhou em arquivos históricos brasileiros para revelar documentos que mostram os esforços feitos à época para impedir a circulação de notícias sobre a URSS.
A Sputnik Brasil conversou com um dos autores da obra, João Claudio Platenik Pitillo, que explica que o livro apresenta as razões que levaram o governo Vargas a omitir o papel da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo a investigação, as motivações do governo Vargas vão para além do anticomunismo.
“[Vargas] também tinha questões internas para além disso. Não podemos esquecer que, em 1935, o movimento comunista internacional vai apoiar um levante comunista no Brasil que visava depor Vargas e assumir o poder. Então existia também essa questão particular do governo brasileiro em lutar contra o comunismo”, aponta Pitillo em entrevista à Sputnik Brasil.

“É curioso que a partir de 1943 o governo Vargas não vai ter mais como represar as informações vindas da frente leste, até porque a conjuntura política interna vai mudando. E mesmo com a mudança gradual até 1945, os donos de jornais no Brasil, todos eles ligados ao capital estrangeiro, vão contar uma guerra a conta-gotas. A cobertura que eles dão à União Soviética é pequena em relação à guerra que a União Soviética estava travando. Aí entrou a questão de classe”, aponta.
O pesquisador também argumenta que o anticomunismo no Brasil seria um fenômeno histórico, mas que não atua sozinho. Segundo ele, essa forma política está presente em governos liberais e reverbera até hoje no país, inclusive, em posicionamentos contra a Rússia contemporânea. “Essas velhas estruturas — OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], Consenso de Washington — continuam pautando o Brasil”, avalia o historiador.
Censura – A obra coletou documentos da época, vários deles inéditos, colhidos no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, no Arquivo Histórico do Itamaraty e no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Pitillo destaca dois documentos inéditos localizados pela pesquisa emitidos pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão criado por Vargas durante o Estado Novo.
“Um deles é um documento que proíbe um jornal, o Correio da Manhã de sair. Ele fica 24 horas proibido de sair porque publicou uma foto da cidade de Stalingrado [atual Volgogrado] — a foto de uma rua com um prédio bombardeado. Isso poderia ser qualquer rua na Europa naquele momento, mas porque publicou uma foto de Stalingrado o jornal cumpriu um castigo”, conta o pesquisador, citando o episódio de 1942.


