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    Home»Blogs»Tribuna Livre»Crônica resgata legado da imigração italiana no século XX
    Tribuna Livre

    Crônica resgata legado da imigração italiana no século XX

    By Arcenildo Martins25 de novembro de 2024Updated:25 de novembro de 2024Nenhum comentário8 Mins Read
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    Em Devaneios da Vida, lembranças da família paterna

    Médica veterinária de formação, com pós-graduação na área de marketing, decidiu se dedicar a escrita depois de anos de experiência na indústria farmacêutica veterinária. Após escrever manuais, textos técnicos e uma pequena coluna no Jornal do Cambuci, finalizou Devaneios da Vida, seu primeiro livro de contos e crônicas. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance.

    CLÁUDIA IPÓLITO

    Estudei na Universidade Estadual de Londrina e, em quase todos os semestres, surgia uma greve de professores. Às vezes era por alguns dias, mas em outros momentos ultrapassava um mês. E foi em uma dessas greves intermináveis, sem data para acabar, que resolvi passar uns dias na casa do meu avô Luís. 

    Era o mês de abril e mais uma greve se instalara na universidade. O clima estava bom, nada para fazer, fiz minha mala e lá fui para Peruíbe, cidade litorânea no estado de São Paulo.

    O vovô Luís morava sozinho e ficou muito feliz com a minha visita. A casa era térrea, em estilo colonial, meio fora de sintonia com o clima litorâneo, mas era ótima. Casinha branca com portas e janelas azuis escuras. Os batentes eram amarelo ouro. No quintal havia um caramanchão onde fazíamos churrasco. Na frente havia uma varanda com duas redes e duas cadeiras largas de vime.

    Era de tarde, logo após o almoço. O vovô sentou-se em uma cadeira de vime e acendeu um cigarro de palha. Fui atrás dele e me deitei na rede. 

    Eu sempre gostei de ouvir as histórias de vida dos mais velhos. Sempre prestava atenção, pois, enquanto ouvia a narrativa, logo imaginava a cena a qual estava sendo relatada. Ainda mais histórias de antigamente.

    — Vô, como foi a vida quando vocês vieram da Itália?

    A família veio ao Brasil no final de 1913, início de 1914, e meu avô tinha apenas cinco anos, mas lembrava-se da viagem de navio, que durou mais de um mês para atravessar o Atlântico. A viagem foi marcante para ele.

    Meu bisavô, Costabile, que, traduzindo para o português, é Gustavo, era marinheiro. Casado com Tereza, tinham uma filha de nome Josephina e o pequeno Luigi, meu avô, o qual todos chamavam de Seu Luís aqui no Brasil.

    A família era originária de uma pequena ilha no sul da Itália chamada Castellabate. A principal renda local era a pesca. Não havia muita oportunidade de trabalho por lá naquela época. A Europa estava em crise. A Primeira Grande Guerra estava prestes a iniciar.

    O jovem Costabile, o qual era marinheiro e com o sonho de uma vida melhor, veio ao Brasil para saber sobre a viabilidade de mudar para a América do Sul. Diziam que nas Américas havia oportunidade para ganhar dinheiro, pois era o que chamavam de Novo Mundo. E foi assim que aconteceu. 

    No início do século XX não havia muita mão de obra no Brasil, pois, com a abolição da escravatura, os senhores de terra buscavam imigrantes para o trabalho na lavoura. Apesar de Costabile não ter essa experiência, aceitou uma oportunidade em uma propriedade rural em Votorantim, interior de São Paulo. Sendo assim, escreveu a sua esposa pedindo para que viesse ao seu encontro com as crianças, pois ele os aguardaria no porto de Santos.

    Tereza, com gravidez adiantada, embarcou no navio com seus dois filhos pequenos rumo ao Brasil. Seria uma viagem longa atravessando o oceano Atlântico. Meu avô contou que sua mãe deu à luz durante a travessia a uma menina, que recebeu o nome Marina, mas que infelizmente não vingou. Morreu no navio. Foi jogada ao mar envolta em panos. 

    Finalmente chegaram ao Porto de Santos e foram à Casa do Imigrante, onde Costabile aguardava por eles. Na sequência seguiram para o desconhecido universo que os aguardava.

    Não falavam português, não conheciam o Brasil, não entendiam de plantação, mas a coragem e a determinação daquele jovem casal em dar uma vida melhor aos seus filhos fez com que seguissem adiante. Não vieram sozinhos, alguns familiares de Tereza e Costabile também fizeram a travessia para o Novo Mundo.

    Chegaram à fazenda e foram instalados na antiga senzala dos escravos. 

    — Toda noite ouvíamos choro e arrastar de correntes — disse o vovô. — As paredes estavam manchadas de sangue. Não adiantava pintar. Meu pai passava cal para ficar branquinha, mas dali a pouco a parede voltava a ter a marca da dor dos escravos.

    Eu fiquei ouvindo as histórias da fazenda, da senzala assombrada, e ele contou que, não demorou muito, saíram de lá e foram morar em Sorocaba.

    A família foi crescendo, nasceram os gêmeos Romeu e Julieta, Nara, Angelina e o caçula Ermelino.

    Vovô contou que, quando era adolescente, foi trabalhar na padaria do seu tio em Sorocaba e aprendeu a fazer éclair, mais conhecida como bomba de chocolate. As quais eram enormes e deliciosas. 

    A família foi para São Paulo capital após a Primeira Grande Guerra, ou seja, por volta de 1920, e nunca mais saíram. Foram para o bairro de Vila Mariana, no qual havia uma grande concentração de imigrantes italianos. Instalaram-se em um sobrado na Rua Humberto I, nome do imperador da Itália. Todos no bairro conhecem a rua como Humberto Primo, “primeiro” em italiano; até mesmo nos dias de hoje os moradores do bairro conhecem a rua dessa forma.

    — Vô, como o senhor conheceu a vovó? 

    — Ah! Esse dia foi incrível. Eu trabalhava na fábrica Nadir Figueiredo. Estava voltando após o dia de trabalho. Saltei do bonde e ainda tinha que andar mais uns cinco quarteirões para chegar em casa. No meio do caminho começou a chover muito forte. Vi uma venda, um empório aberto, e entrei. Lá estava ela, a sua avó. Ela era a filha do dono e estava fechando a porta para a chuva não molhar o interior do empório. 

    Os olhos dele brilharam nessa hora. Continuou.

    — Quando eu olhei para aquela moça tão bonita, logo pensei: eu ainda vou me casar com ela! E me casei.

    Foi assim que Luigi e Nanina se conheceram. Ambos de família imigrante italiana, vindos parar no mesmo bairro num país distante. Para facilitar a vida dos brasileiros com os nomes estrangeiros, eram conhecidos como Sr. Luís e Dona Anita. Tiveram quatro filhos, e um deles era o meu pai, Gustavo. Recebeu esse nome em homenagem ao seu avô. A filha mais velha recebeu o nome de Thereza, depois a Rosa, em homenagem à avó materna, e por último, a raspa de tacho, Marina. Todos os quatro filhos receberam nomes de um ancestral.

    Lembro com muita saudade da infância na casa dos meus avós. Da mesa farta aos domingos, tios, primos, agregados, gente para todo lado. Sempre aquela abundância de comida, apesar da vida simples. O que marcou muito foram as comidas típicas italianas, que quase não vemos nos dias de hoje.

    Meu avô trabalhou até se aposentar na Nadir Figueiredo. Minha avó dava aulas de costura. Minhas primas, minha irmã e eu brincávamos com vestidos e coisas guardadas em um quartinho. Tinha carretel de linhas, lã, tecidos, aviamentos, uma verdadeira bagunça de coisas da vovó. Brincávamos no quintal, na garagem que não tinha carro, era uma festa.

    O sonho dos meus avós era morar no litoral. Estavam na casa dos 60 anos, aposentados, filhos casados e crescidos; foi então que decidiram levar o sonho adiante.

    A filha mais velha, Thereza, comprou uma casa em Peruíbe. Luís e Anita foram conhecer e se encantaram com a tranquilidade do lugar. Venderam a casa de São Paulo e compraram a casa estilo colonial em Peruíbe.

    No dia da assinatura da escritura, minha avó, após assinar os papéis, ficou tão emocionada que enfartou e morreu. Sim, ela nunca chegou a morar lá. Vovô não tinha como voltar atrás. A escritura da casa havia sido assinada. A casa antiga de São Paulo foi vendida e agora só tinha a de Peruíbe. Morou anos sozinho na casa colonial de esquina. Não deu tempo de viver o último sonho com a jovem que conheceu naquela tarde chuvosa. Aos finais de semana, feriados e férias, estávamos com o vovô, para que não ficasse tão sozinho. 

    Fiquei muito feliz com aquela conversa na varanda. Imaginei a dificuldade que passaram, a travessia para outro continente, as conquistas, os períodos de escassez decorrente das duas grandes guerras, a revolução de 1932 e tantos outros momentos históricos que viveram.

    Hoje, todos já partiram para o plano espiritual. Só ficou a tia Rosa, a qual passa dos 80 anos. Tanta coisa que aprendemos com eles, tantas histórias que ficam na memória somente até a geração seguinte e depois são esquecidas. Mas deixo aqui um breve relato da minha história paterna para que seja levada para as próximas gerações.

    Escrevi este texto hoje, em uma manhã chuvosa de fevereiro, mês em que completou dois anos da morte do meu pai, Gustavo, filho de Luigi e Nanina, neto de Costabile e Tereza. Agora estão todos juntos novamente em outra dimensão.

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