Ex-presidente critica partidos por levarem questões políticas para a Justiça
AQUILES EMIR
Em entrevista às páginas amarelas da revista Veja que chega às bancas neste fim de semana e já disponível na versão eletrônica, em seu site, o ex-presidente José Sarney (MDB) diz que não houve tentativa de golpe de estado no 08 de janeiro de 2023. Segundo ele, o que está havendo é um excesso de judicialização desse caso.
“O ataque aos Três Poderes no 08 de Janeiro foi tentativa de golpe?”, indaga a jornalista Isabela Alonso Panho, autora da entrevista, e o ex-presidente responde:
“Não. Houve um excesso de judicialização da política e de politização da Justiça”.
A jornalista indaga ainda sobre o que acha das punições que têm sido arbitradas pelo STF aos envolvidos no episódio, e Sarney opina:
“O Supremo deve ter em mente que, enquanto nós tivermos o sistema penitenciário que temos, ele será uma escola de crime em vez de ser um lugar de recuperação, para que os presos possam desfrutar uma vida futura recuperados. Isso tudo não funciona. Enquanto for assim, as penas devem ser punições que não afetem a lotação penitenciária. Nós temos que abandonar os processos políticos e ver as coisas factualmente”.
Ainda sobre esse caso, Isabela Panho pergunta sobre “qual deve ser o destino dos acusados de tentativa de golpe de Estado julgados agora no Supremo, entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro e generais de quatro estrelas”.
“Não conheço os processos. Não posso julgá-los, não posso ser temerário para fazer uma coisa dessas. Mas, sem dúvida alguma, se tiverem culpados, que eles sejam punidos; se tiverem inocentes, que eles sejam absolvidos”, responde Sarney
O ex-presidente, questionado se concorda com a crítica de que haveria um excesso de ativismo por parte do STF, responsabiliza os partidos por esta intromissão do Judiciário na política

“Quanto ao Supremo e à Justiça, quero usar a palavra do ministro Nelson Jobim, que foi quem detectou, em primeiro lugar, esse processo de judicialização da política. O Judiciário não ficou imune a ele nem à politização da Justiça. Os partidos têm muita culpa nesse processo, porque começaram a fazer decisões que deveriam ser da classe política serem submetidas à Justiça. Os juízes, julgando questões políticas, evidentemente tiveram que adotar posições políticas. Castelo Branco, primeiro presidente do período militar, disse algo que vale até hoje. Ele alertou que o Exército tivesse cuidado com as vivandeiras de papel. A Justiça e os partidos políticos também devem ter cuidado com as vivandeiras que ficam instigando esses processos que levam a democracia a ser envolvida”.
Sarney defende que seu partido não deixe de apoiar o presidente Lula se ele for candidato à reeleição.
Acho que o presidente Lula deve ter o nosso apoio, porque ele tem feito bons governos e, ao mesmo tempo, é um homem comprometido com o processo democrático. Com ele, nós não teremos, em nenhum nenhum momento, tentativas que possam abalar a democracia”, disse ele, se opondo à linha que defende candidatura ao centro, como é o caso do ex-presidente Michel Temer.
“Penso que o MDB deve apoiá-lo se ele for candidato. Nós já o apoiamos, temos uma relação boa com Lula. Sou presidente de honra do MDB, partido com a maior tradição de militância no Brasil. Aliás, o único que restou da sucessão histórica dos nossos partidos, de modo que até hoje resiste a essas modificações todas. As siglas tradicionais foram todas tragadas. O MDB mantém-se firme nessa direção. O presidente Temer é uma reserva do nosso partido. Comigo, ele não falou ainda a esse respeito…”

